terça-feira, 8 de junho de 2010

O ROSTO FEMININO PRESENTE NO MPA

A participação das mulheres no III EN foi uma das manifestações mais reveladoras e comprometedoras e a medida que deixaram demarcados espaços, a importância e as tarefas na vida do MPA. Foram 355 mulheres participando, integrando ativamente as equipes, coordenando, respondendo pelas tarefas, realizando a plenária das mulheres, projetando o exercício de suas responsabilidades na futura coordenação nacional, direção nacional, coletivos, etc.

Este espaço revelador e de responsabilidade não veio de graça; ele é resultado de muita luta das mulheres nos grupos de base, nas regionais, nos estados; é a manifestação histórica de que hoje, no Brasil e no mundo, não se constrói nada de novo sem a participação e protagonismo das mulheres.

As lutas da organização das mulheres hoje são coletivas, integradas numa estratégia maior do Movimento. Sua luta vai além das questões de gênero; elas desde o inicio perceberam que a exploração de classe se sobrepõe as demais explorações. É por isso que elas estão junto com os homens, nas famílias, nas comunidades, igrejas, etc. travando a luta de classes, construindo a classe, sonhando com o porvir da sociedade.

Mas ainda há um bom caminho a se trilhar. A plena participação da mulher ainda é um desafio e uma grande tarefa. O mantra “sem participação ativa das mulheres não faremos movimento camponês, nem construiremos o socialismo” ainda é mantra. O III EN nos apontou tarefas de análise, de pensar em novas posturas teóricas e práticas.

Ainda que em contextos diferentes, as “Teses para a Propaganda entre as Mulheres” (1919), proferidas por Lênin no 3º Congresso da Internacional Comunista e na 2ª Conferência das Mulheres Comunistas, são atualíssimas, pois nelas existem princípios gerais que podem nos ajudar e nos desafiar a priorizar o rosto vigoroso das mulheres manifestado no III EN.

Nas teses de Lênin há uma clara memória das lutas a serem travadas pelas mulheres em seu processo de emancipação: a submissão dentro do lar, a relação machista e utilitária entre sexos, a discrepância entre a igualdade formal/apregoada/legalizada e a igualdade real, a do cotidiano. Para Lênin a luta da mulher deve ser em vista de uma dupla libertação da opressão: do capitalismo e da dependência da família (marido e sua herança patriarcal). Segundo Lênin se faz urgente a necessidade de trabalho priorizando as mulheres, para que elas, em igualdade com os homens, participem ativamente, conscientemente, voluntariamente na superação do capitalismo. A libertação total das mulheres, da injustiça secular, da escravidão e da desigualdade, só se realizará plenamente com o triunfo do comunismo.

O movimento feminino burguês não é possibilidade de libertação para as mulheres, pois enquanto existir a dominação do capital e a propriedade privada, a libertação será impossível, uma quimera. Este princípio nos coloca diante do que campeia na sociedade burguesa, dos feminismos trasvestidos de machismos, colaboracionismos que negam os conflitos ou das guerras entre sexos.

Só chegaremos a uma nova sociedade pela união na luta de todos os explorados. A libertação real das mulheres e dos homens só será possível num regime em que sejamos, em pé de igualdade, donos dos instrumentos de produção, repartamos os frutos, nos tornando parte da administração de tudo, participando cada qual com suas possibilidades no trabalho e na construção deste porvir.

Tratando-se do Movimento e tendo presentes estes princípios de Lênin, somos desafiados a tarefa de transformar as relações entre mulheres e homens em todos os espaços onde a vida circula (família, cozinha e limpeza, grupos de base, escola, lazer, lutas, coordenações e direções). Significa olhar o cotidiano e fazer deste cotidiano algo a ser mudado, não mais naturalizado. É fazer da luta pela emancipação humana uma tarefa de homens e mulheres, companheiros e companheiras, não de projetos rivais, paralelos. Até porque no real, o capital não diferencia muito se é homem ou mulher a ser explorado; a preocupação do capital é o lucro, a mais-valia. O ser humano, independentemente do sexo, é mera mercadoria, servem até que servem.

Para além desta tarefa acima citada, devemos oportunizar a educacao e a mística no espírito socialista ás grande massas femininas, inserindo-as na estratégia do Movimento Camponês, nos comprometendo em combater os preconceitos, reforçando em seu espírito o ideal de solidariedade, pressionando para que se coloquem na ordem do dia das instituições legislativas as questões relativas à igualdade da mulher e sua diferença como mulher, influência nefasta da tradição, dos costumes burgueses e da religião subserviente. Numa palavra, é preparar o terreno para relações mais sadias entre os sexos, é incentivar e destravar espaços tidos como exclusivos dos homens.

Neste espírito, em sintonia com a V conferência da Via Campesina (Matola, Moçambique, 2008), o MPA lançou a campanha pelo fim da violência (psicológica, moral, física, sexual, econômica, política, etc.) contra as mulheres; uma campanha para fortalecer este grito de justiça. A idéia da campanha é sensibilizá-las para a conscientização de que só elas mesmas se libertarão da opressão, sendo protagonistas de sua história.

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