quinta-feira, 10 de junho de 2010

ROSTO INTERNACIONALISTA DO MOVIMENTO DOS PEQUENOS AGRICULTORES - MPA

O MPA saiu do III EN com um novo caráter e nova dimensão nas lutas e missões. Se nos definimos como “movimento camponês, que se propõe resgatar a identidade, o modo de vida e os valores da classe camponesa que aparecem com diversos rostos, das diversas populações e regiões do Brasil” (MPA, Janeiro de 2005), hoje, as exigências históricas nos pedem para repensar uma nova reelaboração, tendo em vista o rosto internacionalista revelado e reconhecido no EN.

Este novo rosto já vem a mais tempo se configurando, mas o batismo se deu com o reconhecimento público por parte das delegações dos continentes, que deram significado novo á existência e organização do MPA, desafiando o Movimento a tarefas internacionalistas.

Uma das tarefas atribuídas ao Movimento é ser Esperança Internacional no campo popular, especificamente entre os camponeses. Esperança porque, apesar do descenso e ausência de referenciais, o MPA manifesta vigor, lucidez, combatividade ao capital, tem bases, uma proposta original para a agricultura camponesa (Plano Camponês). Junto a esta tarefa, o MPA, pela experiência organizativa, produtiva, política, é reconhecido como força campesina internacional, foi desafiado a alargar seus horizontes, se espraiando para todos os rincões das Américas, África, Ásia, onde tiver camponês disposto a organização, a construir mundo novo.

O Movimento ao adquirir outro caráter, internacionalista, passa a responsabilizar-se mais diretamente, tomando posições políticas, ideológicas e práticas a altura de suas novas exigências, seja através das moções (apoio ás lutas de outros povos, repúdio a ações imperialistas, denúncia de injustiças e mentiras de governos e seus instrumentos de comunicação, etc.), seja pelo envio de brigadas de solidariedade, de trabalho militante e voluntário, seja pelo envio de militantes a vários países irmãos para troca de experiências, estudo, qualificação.

Nisso somos encorajados pela práxis de Che Guevara (1991) que sempre via na atividade revolucionária uma atividade permanente, sem fim, até que não se consolidasse a nova sociedade em escala mundial. Assim, o que garantirá o internacionalismo será a solidariedade, o espraiar pelos diversos espaços. A luta pela construção do socialismo exige consciência e posturas novas, atitudes fraternais diante da humanidade, união com os povos que estão em luta pela libertação da tirania. Nossa solidariedade internacionalista deve se fundar em convicções, em projetos, na ética de militantes. Nossa postura, tal como disse Che, deve ser revolucionária e humana, pois o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor.

O MPA sai do III EN com este novo caráter, com mais este traço em sua fisionomia; um rosto solidário e internacionalista. Se nosso objetivo é a produção de comida saudável para os brasileiros, saímos com o compromisso de soberania alimentar para todos os povos; com os demais povos buscamos o resgate da identidade, da cultura camponesa, da dignidade humana. A propósito, Dominico Losurdo, filósofo italiano, em recente visita ao Brasil (maio/2010), afirmou que a nova solidariedade internacionalista passa pela percepção de que a feição moderna das lutas de libertação, fortemente vinculadas pelas necessidades emancipacionistas dos povos, requer um novo bloco histórico significativo da unidade das esquerdas. Este bloco deve abolir a influência do império; ou seja, devemos nos sublevar contra as potências capitalistas que fazem pesar em cada canto do mundo o medo, a expropriação, a submissão paralisante.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O ROSTO ECOLÓGICO DO MPA

A lógica capitalista é destrutiva, está levando o planeta terra a uma situação catastrófica, onde o meio-ambiente, as condições de vida se tornam insustentáveis. Marx nos ensina que esta lógica esgota as forças do trabalhador e as forças da natureza. Deste modo, desejar vida longa ao capitalismo e lutar por vida breve para a humanidade. Esta situação requer resposta política e ética, passa pela transformação das forças produtivas, implica a superação do capitalismo e a possibilidade de se construir o socialismo, uma sociedade capaz de estabelecer relação harmoniosa dos seres humanos entre si e com o meio-ambiente.

O MPA, bem como os demais movimentos sociais coordenados pela Via Campesina, orienta suas lutas ambientais a partir desta concepção marxista. A luta pela preservação da natureza, da vida, está associada diretamente com a luta contra o capitalismo. Esta posição nos leva a confrontar-se com os agressores e depredadores do meio ambiente, da vida, do planeta, que no campo é identificada por nós com o agronegócio e sua burguesia agrária. Significa não nos atemos a falsos problemas, colocando a culpa pela degradação ao consumismo, ao ser humano, etc. – a responsabilidade é do sistema, do consumo do sistema, do militarismo, da lógica de acumulação do capital.

É bom que se afirme que o debate e as lutas relacionadas o meio ambiente não de hoje; são preocupações que remontam as lutas contra a “revolução verde”, que se intensificam na década de 80, aparecendo nas preocupações do Movimento por ocasião de sua origem em 1985/86. Uma preocupação presente nas lutas pela diversificação da produção, contra os agrotóxicos, desmatamentos, na saúde do povo camponês, na plataforma de lutas das oposições sindicais, do então sonhado PT da base, etc. Havia um discurso bem afinado: o meio de vida depende do respeito ao meio ambiente; um está intimamente ligado ao outro, a saúde de um é a saúde do outro.

Todo este acúmulo de experiências e lutas se refletiu nas conquistas obtidas na Constituição de 1988 (art. 225, cap. VII) e na concepção de que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Foi a partir desta concepção e conquistas que o campo popular passou a exigir ações diversas em vista de fazer com que o poder público assegurasse este direito, preservando e restaurando os processos ecológicos essenciais, provendo o manejo ecológico das espécies e ecossistemas, preservando a diversidade e a integridade do patrimônio genético, fiscalizando as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético, assegurando a lei da área de preservação e reservas legais, exigindo estudos de impactos por ocasião de obras, promovendo a educação ambiental e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente, protegendo e obrigando a recuperar o ambiente degradado, etc.

Neste momento os movimentos sociais camponeses têm procurado promover lutas de enfrentamento à apropriação privada dos recursos naturais, das tecnologias e conhecimentos tradicionais, contra transgênicos, agrotóxicos, monocultivos, sistemas integrados, além de defenderem a soberania alimentar. No MPA o surgimento de experiências de agroecologia são potencializadas, destacando-se a preservação de sementes crioulas, a implantação de sistemas agroflorestais , a produção de alimentos saudáveis, o desenvolvimento de energias alternativas, consorciadas com produção alimentar, a defesa dos territórios, o cuidado com a biodiversidade, etc. Numa palavra, a questão ambiental integra obrigatoriamente a nossa pauta, havendo articulação entre desenvolvimento da agricultura camponesa e meio ambiente.

Mais concretamente, o Movimento está em debate e construção de propostas voltadas ao meio ambiente. O III EN foi oportunidade para impulsionar esta pauta ambiental, assumida nacionalmente e que foi apresentada na jornada de lutas de maio , conseguindo avanços nas negociações com o governo. O foco priorizado é voltar-se com ação organizada para que a legislação ambiental, para que ela seja justa e adequada ás famílias camponesas.

A proposta do MPA é a do pagamento por serviços ambientais prestados pelas famílias camponesas, que consiste na criação de uma política para ressarcimento de 01 salário por família e propriedade, por serviços ambientais feitos pelas famílias camponesas, tais como, preservação de fontes, nascentes, matas ciliares, florestas nativas, banhados, restingas, etc. Também a luta é por financiamento a fundo perdido e subsidiado para reflorestamento e implantação de agroflorestas. Muitas coisas já avançaram, mas a luta está recém iniciando e o desafio é acompanhar os projetos e pressionar para que vingue nossas propostas.

O ROSTO JOVEM DO MPA

A juventude é uma das forças mais reprimidas pelo capital, pela miséria, entregues a informalidade do mundo do trabalho, violência, exploração sexual, a sociedade consumista. Entretanto, quando decidida e organizada, é certeza de boas lutas, de esperança; organizados são protagonistas dos processos de transformação, da construção da nova sociedade. Sua participação significa vigor, coragem, dinamicidade, criatividade, virtudes contagiantes.

A participação dos jovens no III EN e a realização da plenária nacional dos jovens do MPA veio reafirmar tal importância e suas insubstituíveis tarefas nas lutas populares. Foram 450 jovens participando e integrando todas as esferas organizativas do Movimento. Esta participação maciça e qualificada confirma e nos leva a refletir sobre este rosto necessário, indispensável na re-criação/re-emersão do MPA e na transformação da sociedade.

Neste sentido, reporto-me a experiência histórica dos jovens (através de seus compromissos nas pastorais, oposições sindicais, luta contra a ditadura, acampamentos, origem do PT, nos grupos de base do sindicalismo e nas origens e história do MPA) e aos ensinamentos políticos de Lênin acerca das tarefas da juventude (1920) para por luz a este rosto, uma das bases da re-criação/re-emersão do Movimento. Parafraseando Lênin, a juventude camponesa é a depositária da tarefa de re-criação/re-emersão do MPA e, com os demais jovens organizados, construir a sociedade socialista; somente a juventude, educada, consciente e organizada poderá fazer ruir o capitalismo.

Sabemos que as tarefas da juventude são imensas e sua práxis se manifesta nas lutas políticas, na prática e experiências alternativas populares, no duro da sobrevivência no mundo do trabalho, produção, formação e educacao. Todos estes espaços se apresentam como oportunidades pedagógicas e espaços potenciais para o exercício do protagonismo consciente e transformador, além de ser espaços para a formação da consciência de construção do saber. Mas, queremos mencionar um espaço por excelência, que segundo Lênin, é a primeira tarefa da juventude, o do aprender. Sim, a tarefa de aprender é fundamental em nossos dias, diante da complexidade que estamos inseridos.

Mas, não é qualquer aprendizado; é preciso saber o que aprender, como aprender, para que aprender. Esta tarefa passa pelo compromisso de rever o sistema educacional, de ensino vigente. No rastro dos pedagogos socialistas e da pedagogia libertadora, apreender não é saber por saber, separação entre teoria e prática, entre técnica e política. Neste sentido a dicotomia é a manifestação de traço herdado da velha sociedade. Nisso está a critica á velha escola, a critica freiriana ao sistema educacional formal, bancário, domesticador, extensionista, vigente em nossas redes escolares.

Em um dos escritos de Freire (“Considerações sobre o ato de estudar”,1982) o ato de estudar é compreendido como um trabalho difícil, exigindo postura crítica, sistemática, disciplinada, animada. Esta é a tarefa urgente que nos é colocada neste momento histórico para os quadros e as massas da juventude camponesa. E é tarefa, pois o ato de estudar, segundo Freire, significa assumir o papel de sujeito critico de seu ato (não ser vasilha, deixar-se domesticar), é ter atitude frente ao mundo (relacionando-se, enfrentando-o), é atitude de inquietude, de diálogo, humildade, é um ato de criar e recriar.

Ou seja, aprender é a tarefa que se impõe á juventude. O que temos de acumulado historicamente não se joga fora, precisa ser apropriado, deve ser transformado, aproveitando tudo que é bom para o nosso projeto. E mais, conhecer o inimigo, sua teoria, sua estratégia, as leis de desenvolvimento da sociedade capitalista, é condição para se criar o novo (conhecer o velho para se criar o novo). Este aprender deve ser assimilação crítica, saber útil, social, atual, contextualizado, capaz de responder aos desafios presentes, a serviço da causa popular e não como a escola burguesa o faz, padronizando, bitolando, castrando, adestrando para produzir mais valia e defender sua ideologia.

Nesta grande empreitada seremos desafiados a amadurecer uma concepção de educacao e uma metodologia ativa e eficaz. Significa reconstruirmos uma moral de militantes socialistas, subordinada aos interesses da luta de classes, a um compromisso com a unidade. Significa que os jovens devem acreditar na sua força e ocupar imediatamente o máximo de espaços dentro do Movimento.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O ROSTO FEMININO PRESENTE NO MPA

A participação das mulheres no III EN foi uma das manifestações mais reveladoras e comprometedoras e a medida que deixaram demarcados espaços, a importância e as tarefas na vida do MPA. Foram 355 mulheres participando, integrando ativamente as equipes, coordenando, respondendo pelas tarefas, realizando a plenária das mulheres, projetando o exercício de suas responsabilidades na futura coordenação nacional, direção nacional, coletivos, etc.

Este espaço revelador e de responsabilidade não veio de graça; ele é resultado de muita luta das mulheres nos grupos de base, nas regionais, nos estados; é a manifestação histórica de que hoje, no Brasil e no mundo, não se constrói nada de novo sem a participação e protagonismo das mulheres.

As lutas da organização das mulheres hoje são coletivas, integradas numa estratégia maior do Movimento. Sua luta vai além das questões de gênero; elas desde o inicio perceberam que a exploração de classe se sobrepõe as demais explorações. É por isso que elas estão junto com os homens, nas famílias, nas comunidades, igrejas, etc. travando a luta de classes, construindo a classe, sonhando com o porvir da sociedade.

Mas ainda há um bom caminho a se trilhar. A plena participação da mulher ainda é um desafio e uma grande tarefa. O mantra “sem participação ativa das mulheres não faremos movimento camponês, nem construiremos o socialismo” ainda é mantra. O III EN nos apontou tarefas de análise, de pensar em novas posturas teóricas e práticas.

Ainda que em contextos diferentes, as “Teses para a Propaganda entre as Mulheres” (1919), proferidas por Lênin no 3º Congresso da Internacional Comunista e na 2ª Conferência das Mulheres Comunistas, são atualíssimas, pois nelas existem princípios gerais que podem nos ajudar e nos desafiar a priorizar o rosto vigoroso das mulheres manifestado no III EN.

Nas teses de Lênin há uma clara memória das lutas a serem travadas pelas mulheres em seu processo de emancipação: a submissão dentro do lar, a relação machista e utilitária entre sexos, a discrepância entre a igualdade formal/apregoada/legalizada e a igualdade real, a do cotidiano. Para Lênin a luta da mulher deve ser em vista de uma dupla libertação da opressão: do capitalismo e da dependência da família (marido e sua herança patriarcal). Segundo Lênin se faz urgente a necessidade de trabalho priorizando as mulheres, para que elas, em igualdade com os homens, participem ativamente, conscientemente, voluntariamente na superação do capitalismo. A libertação total das mulheres, da injustiça secular, da escravidão e da desigualdade, só se realizará plenamente com o triunfo do comunismo.

O movimento feminino burguês não é possibilidade de libertação para as mulheres, pois enquanto existir a dominação do capital e a propriedade privada, a libertação será impossível, uma quimera. Este princípio nos coloca diante do que campeia na sociedade burguesa, dos feminismos trasvestidos de machismos, colaboracionismos que negam os conflitos ou das guerras entre sexos.

Só chegaremos a uma nova sociedade pela união na luta de todos os explorados. A libertação real das mulheres e dos homens só será possível num regime em que sejamos, em pé de igualdade, donos dos instrumentos de produção, repartamos os frutos, nos tornando parte da administração de tudo, participando cada qual com suas possibilidades no trabalho e na construção deste porvir.

Tratando-se do Movimento e tendo presentes estes princípios de Lênin, somos desafiados a tarefa de transformar as relações entre mulheres e homens em todos os espaços onde a vida circula (família, cozinha e limpeza, grupos de base, escola, lazer, lutas, coordenações e direções). Significa olhar o cotidiano e fazer deste cotidiano algo a ser mudado, não mais naturalizado. É fazer da luta pela emancipação humana uma tarefa de homens e mulheres, companheiros e companheiras, não de projetos rivais, paralelos. Até porque no real, o capital não diferencia muito se é homem ou mulher a ser explorado; a preocupação do capital é o lucro, a mais-valia. O ser humano, independentemente do sexo, é mera mercadoria, servem até que servem.

Para além desta tarefa acima citada, devemos oportunizar a educacao e a mística no espírito socialista ás grande massas femininas, inserindo-as na estratégia do Movimento Camponês, nos comprometendo em combater os preconceitos, reforçando em seu espírito o ideal de solidariedade, pressionando para que se coloquem na ordem do dia das instituições legislativas as questões relativas à igualdade da mulher e sua diferença como mulher, influência nefasta da tradição, dos costumes burgueses e da religião subserviente. Numa palavra, é preparar o terreno para relações mais sadias entre os sexos, é incentivar e destravar espaços tidos como exclusivos dos homens.

Neste espírito, em sintonia com a V conferência da Via Campesina (Matola, Moçambique, 2008), o MPA lançou a campanha pelo fim da violência (psicológica, moral, física, sexual, econômica, política, etc.) contra as mulheres; uma campanha para fortalecer este grito de justiça. A idéia da campanha é sensibilizá-las para a conscientização de que só elas mesmas se libertarão da opressão, sendo protagonistas de sua história.

MPA - ROSTO NASCIDO DO SOFRIMENTO SOCIAL IMPOSTO PELAS CRISES DO CAPITALISMO

A lógica do capitalismo, desde o seu nascimento, é expropriar, apropriar-se, excluir, ou seja, sua racionalidade é a exploração da força de trabalho, da intensificação da exploração dos recursos naturais, da mais-valia. Sua sede é insaciável a ponto de lhe consumir, levar-lhe a morte.

A crise é algo intrínseco na existência do capitalismo; elas se sucedem através da história, ganhando novas formas, sendo expressão da luta de classes, de suas contradições. Em outras palavras, as crises do capitalismo são inevitáveis, são resultado das contradições inerentes de seu modo de produção (queda da taxa média de lucro, processo de concentração e centralização do capital, produção social e apropriação privada). Marx, em “O Capital” (1974) afirmava que “as crises não são mais do que soluções momentâneas e violentas das contradições existentes, erupções bruscas que restauram transitoriamente o equilíbrio desfeito".

Hoje, vivemos um período onde as contradições e sujeiras capitalistas chegaram a seu momento critico. A crise é estrutural, assumindo diversas dimensões: ideológica, ética, ambiental, energética, alimentar. Isso faz com que o sistema se incline para a violência, para a repressão, com ofensiva ideológica, militarização, barbárie.

O custo da crise é pago com o aumento de exploração da natureza e da força de trabalho, com rebaixamento das condições de sobrevivência, recessão, arrocho salarial, desemprego, ataque aos diretos conquistados pelos trabalhadores, sofrimento social. Esta é alternativa e receita na perspectiva capitalista para a saída das crises.

Tratando-se dos camponeses, o capitalismo expropria e explora sem piedade o suor, a terra, água, a capacidade de reprodução das sementes, animais e vegetais, a esperança. Tudo que é relacionado ao campo popular passa a ser objeto de disputa: a educacao, o desenvolvimento, o território, os recursos, etc.

Esta ofensiva do capitalismo ganha impulso e trânsito livre, a medida que o campo popular encontra-se também em crise (política, ideológica, organizativa, pragmática, de unidade) e numa posição defensiva, com quadros históricos envolvidos em reformismos, fazendo política de conciliação de classes, “abrindo mão” em ser movimento social revolucionário para viver a comodidade/conformação de uma organização institucional amansada pelos apadrinhamentos, benesses das políticas públicas, regalias e estabilidade de certos quadros.

Nestas circunstâncias, a atual conjuntura é desfavorável ás classes oprimidas; o campo popular convive com as dores de parto, nesta busca de horizontes, de espaços libertadores e transformadores. Entretanto, esta mesma conjuntura abre possibilidades para a classe camponesa e trabalhadora em geral, pois a crise e o sofrimento social transformam-se em processos pedagógicos, revelando o rosto perverso do capital, testando a resistência, criando condições objetivas e subjetivas para a elevação da consciência, unindo e organizando as classes oprimidas, ou seja, a crise e o sofrimento social colocam os camponeses nas estradas, em confronto com a classe dominante.

Neste contexto de crise e perspectivas libertadoras o MPA passa a ser uma alternativa de organização do campesinato brasileiro (pela história, bases, proposições, vitalidade ideológica). O MPA se propõe a colocar em movimento uma classe adormecida, recuperar o potencial revolucionário dos camponeses e camponesas. Nisso o Movimento segue os ensinamentos do marxismo-leninismo, compreendendo que a história é a história das lutas de classes, onde as massas exploradas fazem história e, sob a direção da organização política e ideológica a que pertencem, assumem o papel de educadoras, tarefas de mobilização e construção de um novo projeto.

MPA - ROSTO DE UMA CLASSE EM SI E PARA SI

Uma questão inicial e sempre atual: camponeses e camponesas, somos classe ou um saco de batatas?

Creio que a afirmação “Somos Classe Camponesa” foi um dos maiores ganhos do III Encontro Nacional do MPA. Esta afirmação, embora não seja nova, veio em um contexto novo, de forma contundente, firme, clara, carregada de convicção ideológica, de vigor de militantes; uma nova consciência foi manifestada, novo marco na história foi fincado.

Tratando-se de classe, não podemos deixar de invocar Marx e seu escrito Miséria da Filosofia (1847). Esta leitura nos sugere que o conceito de classe pode ser compreendido num duplo sentido, mas interdependentes e complementares: de um lado, uma maioria inserida na divisão social do trabalho, e de outro lado, como uma organização ética, política, um sujeito coletivo, com consciência, revolucionário. Esta última dimensão é fundamental, pois a classe tem de se exprimir no sentido de um agir coletivo dos interessados, se confrontando com a ordem estabelecida e sendo protagonista de um novo projeto de sociedade.

Em outras palavras, segundo Marx as condições econômicas transformaram, em primeiro lugar, a massa do povo em trabalhadores, uma aglomeração, desconhecidos e até concorrentes uns dos outros. A dominação e a exploração do capital criam situação comum, interesses comuns, reúnem os trabalhadores para a resistência. Essa massa unida já é uma classe em si em relação ao capital, mas ainda não é uma classe para si mesma. A luta política, a união e a organização constituem a classe para si; os interesses que ela passa a defender tornam-se interesses de classe, ou seja, só é classe se consegue libertar-se do jugo dos seus opressores. A propósito, no Dezoito Brumário (1997), Marx afirma que na medida em que milhões de famílias camponesas vivem em condições econômicas que as separam uma das outras, e opõem o seu modo de vida, os interesses e sua cultura aos de outras classes da sociedade, estes milhões constituem uma classe... Mas, isso só não basta, pois apenas ligação local, simulando interesses, sem comunidade, sem organização política, não existe classe.

Esta concepção é importante, pois não são apenas as condições idênticas (ser pobre, camponês, professor, acampar, integrar mobilizações, etc.) que decidem ser classe ou da classe. Tais inserções até podem definir a condição de trabalhador, camponês, de consumo, habitação, etc., mas não definem por si só as opções, posicionamentos políticos e ações práticas. Do ponto de vista educacional e da formação isso traz conseqüências interessantes, pois as formas de pensar e de agir da classe não estão mecanicamente condicionadas pela formação social na qual o sujeito nasce (“filho de camponês, camponês é”; “vivo no campo, camponês sou”, etc.).

Então o que determina a classe para si? Alguns elementos podem ser considerados indispensáveis na determinação, tais como: a) condições materiais compartilhadas; b) interesses comuns articulados (políticos, econômicos, éticos, culturais); c) agir consciente e negação da ordem capitalista (propriedade privada, mais-valia, etc.); d) capacidade de organizar uma resposta coletiva (projeto) à realidade concreta. Sem a pretensão de fechar o debate, cremos que estas mínimas condições já existem e credenciam os camponeses em ser uma classe portadora de um novo devir.

Dito isso, somos remetidos as tarefas de construção da classe, de formar e educar nova consciência coletiva para o campesinato, pois não basta sermos milhões; estes milhões devem ser potencializados, politizados, sujeitos conscientes de suas tarefas na luta de classes. Mas, por si só a formação/educacao não bastará, pois o desenvolvimento da classe para si, da luta política, se desenvolve com outras mediações, em outros espaços, tais como, o da luta pela manutenção e reprodução da vida, na vida política, econômica, cultural, etc. Mesmo nos processos de imposições, de destruição de nosso modo de vida, de sofrimento social, de descensos, somos constituídos como sujeitos, classe. Ou seja, seguindo Thompson (1987), o fazer-se da classe é um fato tanto da história política e cultural, quanto da econômica; a classe forma-se a si própria, como também é formada.

Nisso Thompson nos auxilia em nossos processos pedagógicos; as lutas pontuais, imediatas, estratégicas, suscitadas por nossas pautas, são espaços privilegiados para a formação e construção da classe camponesa. Estes espaços são ponto de partida e se tornam caminho para a formação da classe para si. Sendo assim, caminhadas, manifestações, trancar ruas e bancos, ocupar e acampar, praticar a desobediência civil, etc. devem ser vistos como processos e instrumentos pedagógicos fundamentais, instigadores de contradições, de consciência, formadores de sujeitos éticos e políticos da classe.

No desenvolvimento destes processos educativos e formativos, Paulo Freire será um bom companheiro de jornada, pois sua prática liga classe social ao processo de opressão e exploração. Para Freire a conscientização é sempre uma forma de resistência a estes processos. Neste sentido, o que propicia a mudança da percepção de classe em si para classe para si é a emersão dos sujeitos, o levantar-se das tumbas da opressão, percebendo suas tarefas históricas e se colocando a caminho, coletivamente.

Por fim, voltamos a questão inicial: camponeses e camponesas - somos classe ou um saco de batatas? Creio que o MPA está dando respostas concretas a esta questão, pela sua história, pelas resoluções do III EN e suas ações conseqüentes, materializadas na jornada de lutas de maio/2010, pela construção do Plano Camponês e do poder popular. Marx deixou aberta a possibilidade: podemos ser ou não ser saco de batatas. À medida que estamos a constituir imensa massa de camponeses, vivendo condições semelhantes, mantendo relações e articulações, trocando experiências, com organização, comunidade, representando nossos próprios interesses, com projeto comum, inimigo comum, etc. então somos classe em si, e mais, fundamentalmente, somos classe para si, somos camponeses e camponesas do Brasil!
                                                                                                                               Ijuí, CVCadoná